SHANA TOVA - Um bom ano
Em homeagem ao ano novo judaico que será iniciado nesta sexta-feira ao anoitecer, segue a reprodução de um texto escrito no ano passado. No começo um conto chassídico e depois breve explicação de importantes conceitos. Aproveito a oportunidade para agradecer ao nosso colaborador Eiran Kreimer pelas belas participações que ele nos vem dedicando aqui no blog. O novo ano será o 5770 da contagem da criação do mundo, um número simpático para quem é sefaradi identificado com o chabad: o célebre ‘5’ – chamssa -, seguido do difundido ‘770’ – número e nome da casa onde o Rebe viveu durante sua liderança. Intressante contar que há alguns legisladores que esse ano é o 5769, pois divergem se contar os 5 dias antes do primeiro rosh hashana como um dos anos. * * * - DO ARQUIVO Um dos nigunim (melodias tradicionais chassídicas características por “invocar a alma”) do período dos temíveis dias de Rosh Hashaná, shabat teshuvá e Iom Kipur é chamado de ‘Tiku Bachodesh’. Além da bela melodia sem palavras característica – para não limitar o sentimento em um único significado – como os outros nigunim, esta canção possue uma estranha sequência de palavras que não compõem um linha lógica de pensamento: “Toquem (o shofar) no mês/ No sétimo mês (o Tishrei)/Volte Israel”. Para escutar: aqui e com a voz do Rebe aqui. A lenda chassídica nos conta o fundo histórico deste nigun com uma passagem, também característica, do hassidismo. Um dos chassidim do quarto Rebe de Chabad, mesmo sendo uma pessoa modesta e de pouco estudo ele não deixava de viajar ao Rebe Maharash para as festas, como o costume dos hassidim. Se para alguns o ponto alto de estar com o Rebe era escutar os novos discursos rabínicos envolvendo o hassidismo em seus mais altos níveis, este hassid se satisfazia apenas estando lá com tudas as coisas boas que isso implicava. Mas ao voltar para sua aldeia de origem e no caminho até lá, ele era frequentemente perguntado pelos hassidim que não lograram viajar sobre o que foi dito em Lubavitch. Um chassid não mente, ele respondia que não conseguiu captar os maamarim. Para alegria dos hassidim, ele sabia ao menos dizer quais foram os títulos dos maamarim ditos pelo Rebe. O maamar começa - quase - sempre por um versículo da Torah seguido por algumas perguntas e a explicação do assunto em si, sendo que as primeiras palavras recebem o maior relevo. E daí as palavras do nosso nigun, os títulos de três maamarim distintos, que se não foram transmitidos com todo o seu teor por aquele simples chassid, eram informados juntamente com um belo nigun que, quem sabe, em algum ponto estaria transmitindo a idéia espirtual daquilo que o Rebe ensinou. * * Com vossa permição entrarei na pele daquele chassid que não tem como explicar cada assunto em sua profundidade mas sem no mínimo transmitir os títulos de cada, ou alguns dos, capítulos do Rosh Hashaná, que são muitos. * * * Dia da criação do ser humano: Existe uma discução no Talmud sobre o dia da criação do mundo, se nas vésperas do mês de Tishrei ou do mês de Nissan. O consentimento da halachá fica com a segunda opinião, rezando que o mundo foi criado no dia 25 de Elul, por retroatividade obviamente, e Adão sendo criado no dia 1 de Tishrei – o Rosh Hashaná. Portanto, o dia do aniversário da humanidade é o dia em que devemos voltar a nossa origem divina fazendo com que a ‘criação’, ao invés de separar entre, una as criaturas ao Criador. * * Receber a realeza divina: Este é o ponto que une todas as faces do Rosh Hashaná. O midrash conta que ao final do sexto dia da criação, Adão entendeu que era de sua função unir todas as criaturas para louvarem a De’us e naquela noite de Rosh Hashaná todos eles cantaram o ‘Lechu neranena’ (capítulo 96 dos Salmos incluído no trecho litúrgico do Kabalat Shabat que recitamos nas sextas de noite): “Vamos nos curvar e ajoelhar perante o De’us que nos criou”. Considerando que o objetivo da criação do mundo é fazer uma moradia para Ele nos mundos inferiores, neste capital dia devemos receber Sua realeza concretizando o objetivo primário. * * Sacrifício de Itschak: Ainda no valor histórico, a tradição indica que o sacrifício de Isaac ofertado por Avraham também aconteceu em Rosh Hashaná. Esta passagem é frequentemente citada nas orações, e é lida na Torah também, como um meio de “lembrar” a De’us e a nós mesmos a nobreza de nossos ancestrais, que levaram até a última via de fato a máxima de que a religião deve ser praticada sem o mínimo interesse externo além de cumprir a palavra de De’us. * * Dia do Julgamento: É quando De’us considera os alcances dos objetivos traçados na criação do mundo. Se vale a pena seguir com o mundo ou não. Depois de decidido que sim, o que este ano nos vai reservar, de coisas boas e do contrário. O julgamento também deve ser feito pela pessoa como modo de reflexão introspectiva. * * Cabeça do ano: Em hebraico o termo Rosh Hashaná não significa o ‘ano-novo’ ou o ‘primeiro dia do ano’, ele é literalmente a cabeça do ano. A semelhança da cabeça que inclue dentro dela todo o corpo através do sistema de nervos, o Rosh Hashaná inclue nele todo o resto do ano, já que dele saem as benções para o todo o resto do ano e, por isso, o nosso comportamento no Rosh Hashaná pode influenciar todo o resto do ano. * * O Toque do Shofar: “A mitsvá do dia é o shofar” disseram os sábios. Tanto halachicamente, essa é a principal mitsvá pela qual fomos ordenados e muito mais misticamente, o toque do shofar representa o grito do âmago da alma, da essência única de todos ao mesmo tempo, atingindo níveis espirituais onde o pecado é perdoado ou sequer existe. É a nossa arma contra os nossos atos “acusadores” de uma má conduta e o nosso meio de se comunicar com nosso Pai uma vez que esquecemos do idioma que deveríamos usar. * * Teshuvá e boas decisões: É bom revestir parte da energia do Rosh Hashaná em alguma boa decisão visando o ano novo que acaba de entrar. A própria divisão do tempo, em dias, anos etc. serve para nos lembrar que é possível mudar o rumo. “Termina-se o ano com suas pragas e começa um ano com suas bençãos”. Grande parte deste ensejo, depende de nós e de nossas decisões. * * Tashlich , Jantar, Maçã com mel e outros simbolismos: O Rosh Hashaná possue vários pequenos costumes de ordem (auto)-didáticas e místicas que vieram reforçar ainda mais os assuntos do dia, jamais para roubar toda a cena. Me recordo do irônico Rebe de Kotsk lembrando a seus alunos, após verificar que nenhum deles comera nozes no Rosh Hashaná por estes terem a numerologia da palavra pecado, que, pasmem, o pecado também tem numerologia de pecado... * * Shana Tová!!: Este é um dia de nos aproximar de nossos amigos e conhecidos desejando todas as felicidades do mundo para aqueles que nos circundeam tendo a certeza que seremos todos inscritos no livro da vida e da felicidade. * * E um grande shana tová e especial para todos que visitam este humilde espaço neste gigante oceano da internet. Com a ajuda de De’us continuaremos seguindo adiante transmitindo os valores que acreditamos, sempre respeitando os próximos. Iossi Katri.
Escrito por Iossi Katri às 09h00
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