“- Alô, Rabino, tenho uma pergunta: estou me confundindo, e desculpe perguntar, quando é o Iom Kipur? No dia 8 ou no dia 9?
-Nos dois, e não precisa se desculpar! Começa no fim da tarde do dia 8 e termina na noite do dia 9?
* * *
O Iom Kipur é o dia de maior elevação entre os judeus, todo e qualquer um. Tanto àquele que sabe de cor e salteado as longas e exclusivas rezas do Iom Kipur, como para quem só conhece reza no Iom Kipur. O próprio Kol Nidrei – reza recitada no começo do Iom Kipur – prevê a participação daqueles que não estiveram presentes no resto do ano. Se há um dia pra recomeçar, e todos podem ser, o dia é o Dia do Perdão.
Na prática, mais do que recomeçar um novo relacionamento com De’us, podemos mudar o rumo de coisas que já aconteceram, na linguagem dos sábios “pecados se transformarem em méritos”. É explicado pela chassidut que nesse dia a essência da alma do judeu é revelada, o ponto onde estamos ligados com De’us. Similarmente a relação entre pais e filhos, as criaturas também não tem como se separar de sua origem, independendo das circunstâncias. É este o nível de ligação, ou a própria ligação, que deve ser envocada para que o perdão seja concebido. Uma vez atingido, pecados e mitsvot, como passado e presente, não fazem mais diferença. Caso chegamos a este nível, depois e através de nos sentirmos distantes, os motivos do distanciamento acabam recebendo o mérito da reaproximação.
Analisando o Iom Kipur por este prisma é fácil entender porque ele foi considerado pelo Talmud como um dos dias mais felizes do ano. As penitências, por exemplo, podem ser lidas alegremente, como fizera um dos alunos do Baal Shem Tov, numa conotação de alívio: - ‘que bom que estamos nos livrando de tantas coisas que não gostaríamos de carregar conosco pra sempre!’.
As portas da Teshuvá (retorno) não possuem campainhas, elas estão sempre abertas mesmo pra quem não marcou hora pra entrar. Pois é isso que o Iom Kipur nos ensina, não apenas com relação a este dia mas para todo o ano. Nossa relação com De’us, citando mais uma vez o Baal Shem Tov, é muito maior do que o amor de um pai a seu único filho que nasceu quando este já era velho.
Prédica ditada na noite do Iom Kipur na sinagoga Beit Chabad no ano passado
Por Iossi Katri
Shalom, nós estamos começando os serviços do Iom Kipur desta noite e do decorrer do dia de amanhã. Como todos sabem, este é um dia muito solene e, por ser o dia mais sagrado do ano no judaísmo, é sem dúvida o dia de maior mobilização por parte das comunidades que comparecem em grande número, como podemos ver, nesta ocasião.
A propósito, a prédica do rabino neste dia também tende a ser especial. Alguns aproveitam a presença maciça do público para fazer um resumo de todas as palestras proferidas no decorrer do ano. Outros guardam o melhor discurso para o Iom Kipur, o mais emocionante ou o mais genial. Eu, no entanto, humildemente, não farei nada disso. Eu quero falar sobre nós mesmos. A comunidade judaica de Belo Horizonte. Esta comunidade que, freqüentemente, não com inteira justiça, vem acompanhada com o rótulo de pequena, a pequena comunidade de Belo Horizonte.
Bem, antes de entrar neste mérito, quero fazer uma pergunta: será que é possível ou faz sentido esperar pela continuidade desta pequena comunidade, deveras pequena se comparada com a grande população desta cidade, onde os poucos judeus acabam se perdendo nela como judeus? O que dizer sobre esperar e ansiar por um crescimento? Ou por um aumento de intensidade, de pujança. Seria isso uma utopia inalcançável?
Esta questão foi tratada de forma indireta por um dos famosos "sábios" de Chelem (cidade no interior da Polônia) que não eram lá tão sábios. Sábios eram os autores daqueles personagens. Enfim, certa vez Yankel e Malka voltaram cansados do duro trabalho e rapidamente se acostaram para descansar. Mas que pena, Malka percebeu que a janela estava aberta e num tom imperativo disse a seu marido: - Yankel, você esqueceu a janela aberta, vá fechá-la. Você não percebe que está frio lá fora? Ele respondeu, não sem preguiça: - e seu eu fechar, ficará menos frio lá fora?
Aqui está a resposta para a nossa questão, pode ser que realmente, considerando toda a população da cidade, somos bem menos de um por cento e, nossa aglutinação e participação na vida comunitária não farão nenhum efeito a ser percebido pelos outros. Mas, a semelhança do ato de fechar a janela de casa numa noite fria, para nós, nós mesmos, faz uma grande diferença.
Então, unindo certos esforços, da gente pra nós mesmos, conseguiremos fazer da centenária comunidade judaica de Belo Horizonte um dos respeitáveis centros judaicos do Brasil. Se não no tamanho e no número, na pujança e intensidade, no respeito e preocupação a cada membro.
Pensando no caminho a ser feito, nós percebemos facilmente todas as dificuldades, os limites e o duro esforço, afinal de contas somos uma comunidade pequena e etc. Mas vocês sabem melhor do que eu, que em qualquer faceta da vida, só alcançamos qualquer tipo de sucesso se esforçarmos. E nós, não temos muita escolha nas circunstâncias presentes. E nem nossos pais tiveram também.
Alguns de vocês, e muitos dos pais de vocês vieram das pequenas cidades no leste europeu, da Polônia, Hungria, Romênia, Bessarábia, dos shteitels. Eu não estive lá, mas pelo que me contaram, eram lugares bastante pobres e pequenos. Um shteitel podia contar com mil famílias judias, outros com quinhentos, outros com 100 e outros ainda com menos.
Em um destes shteitels na Lituânia (que até hoje não é um país rico), chamado Babroisk, eles eram muito pobres. Mas, já que a quantidade de dinheiro, não necessariamente, influa na pujança da comunidade, eles formavam uma bela comunidade. Mas como o dinheiro, afinal de contas é imprescindível, eles passavam por muitas dificuldades em tudo que era ligado a este detalhe.
Para pagar o rabino da cidade, eles lhe davam uma mínima quantia de dinheiro e o alvará da exclusividade na venda de sal entre os judeus daquela cidade. Eles não davam o que podiam, eles davam, literalmente, mais do que podiam. E o rabino sabia bem disso e sempre tentava consolá-los quando estes se desculpavam ao rabino pelas precárias condições e por serem uma comunidade pequena.
Certa vez, numa prédica ante sua comunidade, o rabino disse assim: “Vocês sabem, nos mapas de países, continentes e mundiais que encontramos, existem alguns tipos de marcações. Se tem uma marca bem grande e clara para as capitais mundiais, Londres, Paris, Roma etc. Existem as marcas medianas para as cidades de menor expressão, como Vilna, Praga, Varsóvia e assim por diante. Existem as menores ainda, e estas só aparecem em mapas rebuscados, como Berditchev, Brestlaw, Kovna etc. E existem ainda as cidades que nem aparecem no mapa, que nem o nosso shteitel, Babroisk”.
Mas saibam, continuou o rabino, perante De'us, "nos céus" existe outro mapa. Naquele mapa, também se tem marca maior para as grandes cidades e menores para as pequenas. Só que lá, o critério para considerar o que é grande e o que é pequeno é diferente. Os mapas que nós conhecemos consideram o tamanho da população, a economia e assim por diante. Já no mapa lá de cima, o que vale é a quantidade de boas ações feitas, as mitsvot feitas em cada lugar, um amen aqui, outro Tefilin ali, um estudo de Torah a mais e assim por diante. Saibam, disse o rabino consolando sua comunidade, que naquele mapa, nosso shteitel, Babroisk está marcado com a maior das marcas, e outras cidades que parecem ser muito grandes como Paris e Londres, eventualmente nem estão presentes no mapa celestial. Depois daquela prédica, aquela comunidade parou de se queixar do destino e entenderam que perante De’us, eles são, apesar de anônimos neste mundo, muito queridos por Ele.
Como disse, queria falar de nós mesmos. Falo desta comunidade como um de vós, mas que conhece e passa grande parte do ano em outros lugares. Rogo que, quem sabe, a partir deste Iom Kipur, a comunidade judaica de BH, principalmente a do Beit Chabad, faça uma guinada pra frente, adiante. Primeiramente, com vocês comparecendo mais, não apenas comparecendo, mas se envolvendo mais, buscando mais o aprendizado - e olha que tem muita coisa no judaísmo para aprender. E em segundo plano, tão importante quanto, que aqueles que estão presentes, chamem seus amigos que não estão presentes (e que por enquanto são muitos). A comunidade não tem como ser construída com o esforço de apenas um casal, ou de um punhado de pessoas, cada um tem o mérito de participar nesta sagrada missão. Pessoa por pessoa, família por família, porém firmemente.
Com certeza, tomando boas decisões neste sentido, lograremos ser inscritos e assinalados no livro da vida. E não somente receber o Mashiach em breve, mas muito mais que isso, trazer o Mashiach.