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JUDAÍSMO VEGETARIANO?
Estive lendo ‘O Escravo’ de Isaac Bashevis Singer, que conta a história de um rabino que ficou refugiado numa aledia polonesa habitada por bárbaros nos anos que seguiram o grande levante de 1648-9, que aniquilou um terço dos judeus que viviam na Polônia (é possível ler sobre isso em Português no livro de Arnaldo Niskier: Shach, as lições de um sábio). Enquanto a trama da história em si é fictícia (e emocionante), o fundo histórico é narrado com maestria e precisão, dando-nos uma excelente noção de como os judeus viviam naquela época, ainda predecessora ao Baal Shem Tov e a chassidut. Um livro que recomendo fervorosamente.
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O detalhe que destoa um pouco da fidelidade ao tempo em que se passa a história é o vegetarianismo, manifestado diversas vezes, de Yakov, o herói do livro. A explicação: Isaac Bashevis Singer era vegetariano. É dele a resposta, quando perguntado se não comia carne por questões de saúde, que sim, só que pela saúde das galinhas.
Em ‘O Escravo’, Singer motiva o vegetarianismo de Yacom com um profundo sentimento religioso que o faz interagir com toda a existência criada por De’us. De fato, não é simples conseguir legitimidade para tirar a vida de um animal (e peixes e aves incluídos) pelo prazer alimentício. Por motivos culturais milenares, a questão da vida e da saúde dos animais, é um tanto difícil de ser entendida, aceitada ou levada a sério, se alguém começa a falar sobre, todos já fazem uma cara de ‘lá vem ele contar abobrinha’, o veredito sobre a questão já foi dado e o assunto está encerrado. Mas, será que as pessoas realmente sabem por que podemos matar pra comer?
Concordo que é pedir muito, esperar que todos saibam e entendam o tratado filosófico-moral sobre a alimentação de carnívora, mas na prática, isso é uma coisa que todos fazem quase que diariamente. Enquanto é mais fácil entender a pergunta ‘por que se pode comer animais?’ do que a resposta para essa pergunta. Outrossim, é interessante notar, que a pergunta já traz dentro de si, o veredito final: ‘pode comer animais’, só nos resta saber o porque.
Já ouvi um argumento um tanto pragmático que rezava o seguinte: se não podemos nos alimentar de animais, peixes e afins, sobram as verduras, que por sua vez, também são/eram seres vivos. Ainda mais, existem milhares de seres microscópicos que nós matamos em cada folha de alface ingerida! Existem outros que dizem que as regras da cadeia alimentar nos eximem de qualquer culpa e injustiça, deixando a entender que caso existisse algum ser mais poderoso que o ser humano...Outros ressaltam que a consciência dos outros seres vivos não pode ser comparada com a das pessoas, de modo que podemos minimizar a dor e a injustiça de ser morto pra virar alimento.
Para a religião judaica, estes e outros argumentos parecem não ser suficientes, tanto é que ela traz suas próprias razões, que só podem ser aceitas com fé. É contado que antes do pecado inicial no Jardim do Eden, Adão era proíbido de se alimentar de animais, sendo permitido ao ser expulso de lá. A chassidut explica, que até o pecado, o bom e o mal eram claramente separados, e o homem não tinha a missão de refinar o mundo. Quando as sentelhas divinas do bem e do mal estão misturadas, é dever do homem se usufruir do mundo, viver nele, de modo que todas as coisas que ajudam o homem em sua vida de conhcimento de De’us, sejam elevados para a divindade.
No nosso caso, alguém que se alimenta de carne, estaria elevando o animal, os vegetais e minerais que este animal ingeriu por toda sua vida à divindade, caso usar da energia que recebeu nessa alimentação para bons fins. Uma vez que o mundo inteiro foi criado com o intiuito de, através do trabalho e missão do homem voltar a sua origem divina, a pessoa que se alimenta de um animal e o eleva a divindade, está fazendo um favor para o animal, e este chega a sua própria redenção final. Esta é a resposta do judaísmo chassídico.
Na consciência pública ficou mais ou menos assim: ‘o vegetarianismo foi refutado pela religião; existe um ponto em elevar o mundo, comendo com boas intenções.’ E declaramos para nós mesmos uma vez a cada alguns anos: tudo o que eu comi e tudo que comerei daqui pra frente será leshem shamaim – em nome dos céus, e negócio fechado. Na verdade, não deveria ser exatamente assim. Como nos escancara esta curta anedota judaica:
“Froim Greidinger uma vez estava sentado no restaurante e quando começou a chorar após que o garçom trouxe o prato de carne que ele pedira.
- Por que você está chorando? – lhe perguntaram.
Froim contestou: - Mataram um boi inteiro, só pra dar este pedacinho tão pequeno de carne, era melhor ter o deixado em vida.”
Se Froim chorou pelo boi porque queria mais carne, nós, quando percebermos que nossa intenção de elevar o mundo a divindade foi tão pequena, quase inexistente, podmos considerar: será que valeu a pena matar um boi inteiro só pra isso?
Escrito por Iossi Katri às 06h50
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