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    Judaísmo e Etc.


    CULTURA JUDAICA

    Ao analisar à fundo uma sociedade, mais do que saber os indicativos socioeconômicos e mesmo de educação e conhecimento, deve se olhar com bastante importância qual é a cultura dessa sociedade e quanto lugar, em profundidade e abrangência, ela ocupa na vida de seus integrantes.

    Mas o que é a cultura de um povo? De maneira simples e objetiva, é possível responder que a cultura é tudo aquilo que sai do obrigatório na vivência de uma ou mais pessoas.

    Outro dia, por exemplo, presenciei um belo flagrante cultural em uma pequena oficina de carros: alguns dos mecânicos estavam reunidos sorrindo diante de um pedaço de papel, era uma charge de teor futebolístico - a obrigação cedendo o espaço para que a cultura possa se expressar.

    O mundo judaico, de tão longa história, não apenas pela longevidade como também pela variedade, sem dúvida, possui uma das mais ricas culturas que se tem notícia. Até porque os judeus sempre se preucuparam em preservar e transmitir adiante a sua bagagem cultural.

    Poucos sabem, em vários dos idiomas que se usam hoje, historicamente, foram os judeus os pioneiros em usá-los na forma escrita pois, inspirados pela própria Torah, estavam empenhados em documentar aquilo que com eles se passava e aquilo em que acreditavam. Assim também, nesse afã de escrever, expandir e inovar, a religião judaica se desenvolveu de sua forma mais bruta e sucinta do período pré diáspora ao verdadeiro oceano de ideias, leis e sobretudo interpretações que é o judaísmo de hoje em dia.

    Cultura judaica e religião judaica, não poderia deixar de ser, cresceram e crescem juntas, uma à base da outra. Muitas leis no judaísmo foram criadas a partir de determinada vivência e determinada cultura e grande parte da cultura judaica tem como pano de fundo as leis históricas da religão.

    Mas por incrível que pareça, essa relação entre a religião judaica e a cultura judaica carece de um ponto de equilíbrio e nem sempre ambas as partes se prestam a conviver harmoniosamente.

    A religião judaica da maneira que foi monopolizada por rabinos detentores do poder de legislar e/ou de mistificar, nem sempre, enxerga a cultura judaica com bons olhos. Afim de aumentar o poder e a penetração de suas leis e ensinamentos ante os seus adeptos, muitos rabinos, não apenas negligenciam a parte cultural como apenas a exploram, mesmo aquilo que é extraído diretamente das fontes religiosas, se for meramente como um meio para chegar naquilo que lhes interessa, o comportamento das pessoas.

    Não tendo a cultura importância por si própria aos olhos da religião, os encarregados por esta última tratarão de tentar conquistar todos os seus espaços ao ponto que não haja diferença entre religião e cultura. Mas, ressalte-se, quando e se isso acontecer, não estará se consumando uma simbiose entre religião e cultura uma vez que a cultura é necessariamente aquilo que não é obrigatório, livre, status complicado de deferir a algo em que a religião, neste prisma particular, está envolvida.

    Em resumo, existe um determinado religiosimo que não suporta uma cultura judaica. Note-se que assim se cria um espaço para outra cultura qual os rabinos não detém o mesmo poder para esvaziá-la de sua importância.

    No outro lado, há muitos apreciadores e entusiastas da cultura judaica que, por seus motivos, abdicam da religião. O que acontece é que apesar de muitos dentre estes produzirem cultura de primeira qualidade, essa fórmula não obtém tanto sucesso.

    Tomemos como exemplo o poeta e escritor Chaim Nachman Bialik. Quem lê Hebraico, pode ler aqui duas pequenas poesias (com explicações) de sua autoria que são, de verdade, cultura judaica em um de seus estados mais elevados. Elas têm como fundo uma celebração bíblica, estão recheadas de citações aludidas das escrituras e brincam com facetas da vida religiosa, como, por exemplo, o fato das quatro espécies tão valorizadas e cuidadas antes e no decorrer de Sucot ficarem em total relento ao final da festa. Bonito.

    Alguém como Bialik, um grande conhecedor do judaísmo, pode captar a profundidade de suas alusões talmúdicas em suas poesias. Uma pessoa apenas religiosa – o que Bialik não era – pelo menos, entenderá a graça da poesia (até por saber bem a dor de cabeça que são as quatro espécies depois da festa) mas aquele que nunca foi religioso e estudou, por exemplo, em uma das escolas que leva o seu nome, dificilmente terá visto, pensado e dará a menor importância com o que se passa com o Etrog depois de Sucot.

    Vemos, então, que é difícil educar apenas em prol de uma cultura judaica, principalmente de uma com alguma qualidade além do Guefilte fish e do Osse Shalom, sem se abastecer na religião. Um resumo desta situação se encontra no conhecido ditado de que David Ben Gurion pretendia criar em Israel uma geração de “epicuristas”, pessoas versadas no judaísmo e ateus aos mesmo tempo. Mas não conseguiu, diz o ditad, lá se criou pessoas ignorantes no judaísmo e com fé na religião.

    Para que exista algo interessante que possamos chamar de cultura judaica, é necessário, como já foi cantado ali em cima, um ponto de equilíbrio. 

    De'us livre os religiosos de evitar toda uma bagagem cultural judaica, interessante e profunda que se acumulou no decorrer da história – inclusive produzida por judeus não religiosos- afinal, como sabemos, a religião precisa se amamentar da cultura judaica para continuar se desenvolvendo. E que o instinto de sobrevivência ilumine os judeus culturais quanto a inviabilidade de existir uma cultura judaica totalmente alienada do judaísmo histórico que também deve ser ensinado às próximas gerações.

    Enfim, tanto para os religiosos quanto para os judeus culturais, é importante saber que caso esse desnecessário confronto persista às custas da existência de uma cultura judaica, o indivíduo continuará sempre interessado em se distrair e outra cultura estará lá. Convém se precaver, muitas vezes, a reposição acaba sendo a cultura das massas ou qualque outra coisa que talvez nem por cultura valha se chamar.



    Escrito por Iossi Katri às 07h10
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    A vingança da Kapará



    Escrito por Eiran Kreimer às 20h49
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    Ensaio sobre Kol Nidrei - editado

    Mesmo sendo oficiado apenas uma vez por ano, na abertura  dos serviços litúrgicos do Iom Kipur, o Kol Nidrei é a oração mais famosa no judaísmo e sua característica melodia sempre produzirá algum eco em ouvidos e corações judaicos.

    Certa vez, o sr. Szymon Klajnberg, de abençoada memória, me relatou como se emocionara ao ver um vídeo de uma execução do ‘Kol Nidrei’ feita por um coral de Nova Yorke. Num tom que nada lembrava qualquer fraqueza, afirmou: “Eu até chorei assistindo aquilo”. Pra mim ficou claro que algo muito mais profundo que uma mera contemplação musical bradava do coração daquele senhor de 80 anos que jamais perdeu a capacidade de se emocionar.

    Nos resta tentar entender e explorar o que há no ‘Kol Nidrei’ que o faz ser uma marca na vida judaica há milhares de anos até hoje em dia.

    A questão se torna mais desafiante quando lê se o seu texto e se descobre que o ‘Kol Nidrei’, na prática, sequer é uma oração – se trata de uma declaração coletiva rezando que: Todos os juramentos (a tradução literal do termo 'Kol Nidrei') e promessas que forem feitos deste Iom Kipur até o próximo Iom Kipur são à priori revogados uma vez que desde já estamos arrependidos por fazê-los. Revogados e cancelados. Juramentos não são juramentos e promessas não são promessas.’(tradução livre).

    Houveram rabinos legisladores do período pós talmúdico (século 5 da era comum) que se opuseram à recitação do Kol Nidrei. Eles sustentavam, e com razão, que a presente fórmula de se livrar de todo e qualquer juramentos através desta declaração não é válida na lei judaica. Apesar disso, o Kol Nidrei não foi retirado dos livros de oração, apenas o tempo verbal foi invertido do passado para o futuro (no rito ashkenazi, o sefaradi contém ambos), sobrando a certeza de que sua recitação, também nos olhos de quem a implementou, não é um ato protocolar. Deve ser simbólico e sentimental.

    Uma possível chave para o entendimento do significado desta cerimônia está na dramática frase que introduz o Kol Nidrei “Com o consentimentos de De’us, do público, dos que estão nos céus e dos que estão na terra, nós nos permitimos rezar com os pecadores”.

    Esta frase que pode ser considerada o título do Kol Nidrei, foi introduzida na oração pelo Rabino de Rotemburg em meados do século 13. Pode se considerar que seu acréscimo veio para sintetizar um significado já presente na declaração revogatória dos juramentos. Qual seria, então, a ligação entre os juramentos revogados e a reza dos pecadores?

    Tendo a Torah e o judaísmo tratado os juramentos em via de regra de  um modo muito rígido com inúmeras leis e nuances, sedimentou-se um entendimento entre os judeus de que é sempre melhor não entrar nesse campo, evitar jurar e prometer. Assim, quase todos procedem e ainda é comum o uso da expressão ‘bli neder’ (sem juramento, compromisso) mesmo em conversas informais onde, à princípio, não há caráter juramental tal feita que raramente se infringe uma dessas leis. Pode se pensar que, pelo menos no quesito violação de juramentos, foi atingido um nível próximo a perfeição. 

    Entretanto, quem se permitir especular sobre o motivo pelo qual justamente estes preceitos gozam de maior observância nos últimos séculos, pode concluir que as vigentes regras das chamadas 'boas maneiras' e do que é chamado de 'educação' aliadas com certo desprendimento não permitem às pessoas ter um grau suficiente de espontaneidade, afastando as mentalmente de outrem e de si mesmas, não sendo vivas o suficiente para se encorajar e fazer algum juramento. Mas pela Torah, não necessariamente isso é o ideal. Não existe o mandamento de se controlar para não jurar.   

    Entendendo as características de um juramento, observa-se que o mesmo nasce sendo um fruto de um momento de grande intensidade na alma, que em muitas vezes aparecem espontaneamente, uma percepção que a pessoa pretende materializar posteriormente no extremo do fato. Sabendo que a comoção e a intensidade do momento vão passar, a pessoa se ata a um juramento para mânter sua palavra mais adiante. Nisso, que se mantenha o compromisso, a Torah tem interesse.

    Pois aquele que não consegue mânter sua palavra, além de profanar a própria palavra, mostra que em seu interior é uma pessoa partida, não sabe ao certo o que quer e tem vontades contraditórias que não conseguem ser mediadas. Há, por trás da rigidez e nas próprias ordens para que se cumpram os juramentos, a premissa que deve-se almejar ser uma pessoa completa, inteira, genuína.

    Mas e se uma pessoa se descobre partida, sem conseguir de jeito maneira mânter sua palavra, o que fazer? A Torah resolve com a revogação do juramento. Este conceito persiste no fato de que a pessoa não enxerga de lá o que se vê de cá – se ela soubesse na hora do juramento o quão difícil seria cumprí-lo, ela não o faria.

    Isso é o Kol Nidrei - que em sua origem também é uma revogação dos juramentos já feitos e possui claramente o motivo de uma mudança quanto ao futuro -  a expressão de um acatar de uma nova consciência, acima e contendo os dois lados da moeda que provocaram o juramento e sua revogação, o pecado e seu arrependimento. Seu lugar no início das rezas no 'Iom Kipur' se mostra realmente providencial pois de que valeria a clemência divina sem alguma resolução interna pessoal.

    O Kol Nidrei é ainda mais valioso àqueles judeus que têm a própria "judeicidade" em dúvida: o judeu que por vezes se vê no espelho e não enxerga bem o judeu que há em si mas que no fundo gostaria de exercer mais, o que procura um solo em baixo de si para poder dizer que é seu mas só encontra algo no plano espiritual e o que enfrenta à duras penas e no próprio corpo a tenebrosa assimilação que assola o nosso povo - todos estes têm no Kol Nidrei, à exemplo dos marranos que o consagraram na época da inquisição espanhola, a oportunidade de resolver as contradições internas e começar as orações do Iom Kipur como os verdadeiros donos de suas almas.

    Ao final, as lágrimas do Kol Nidrei também são a expressão do processo de integração que ocorre na alma afim dela se renovar. 



    Escrito por Iossi Katri às 01h18
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    Sentimento de culpa no Judaísmo

    Caros, aqui segue um texto genial, quase poético, que traduzi no ano passado e que faço questão de, depois de editar, republicá-lo desta feita.

    Shaná tová a todos! 

    Por SHALOM ROZENBERG

    Os dias temíveis do Rosh Hshaná e do Iom Kipur são as festas da ’consicência pesada’, os embaixadores da ética e da fé, torturando corações com sentimentos de culpa e arrependimento.

    A escritura descreve tais sentimentos de diferentes formas, a melhor delas em Samuel: “e o coração de David o bateu”. Essa expressão nos oferece um profundo significado para o costume de se bater simbolicamente no coração na hora da confissão de pecados. Está-se apenas ajudando o coração em sua tarefa.

    Confissão de pecados esta que chama a atenção: elas não são simplesmente proferidas nas orações, são cantadas com melodias alegres. O que faz aqui esta alegria? Essa canção e essa alegria expressam um trabalho paradoxal que vale descobri-lo. 

    É sabido que nas últimas gerações, principalmente depois de Nietzsche, pensadores e psicólogos partiram pra cima do sentimento de culpa para exterminá-lo. Estão certos? Sim e não.

    Para entender esta equação, pode se comparar o sentimento de culpa com a sensação da fome. Populações inteiras sofrem com o mal da fome que derruba, ainda, muita gente. No entanto, na sociedade ocidental, o problema não é a fome, é o excesso de satisfação. Não come se para atender a saudável voz da fome mas para satisfazer os olhos, o olfato e o paladar que se deixam seduzir com demasiada facilidade. Foi perdida a sensação de fome. De fato,  a fome pode ser patológica, um fenômeno que destrói sociedades. Só que a perda da fome aponta para uma sociedade que fecha seus orifícios, destrói seu coração e defeitua sua cabeça.

    Tal qual a falta de fome a falta do sentimento de culpa. Há uma medida em que essa culpa é saudável e, claro, sem jamais ser imposta, pois não tem uma importância própria (e tampouco santidade, como o Cristianismo acredita), é apenas um meio para evoluir.

    Existe também o sentimento de culpa patológico que fere a pessoa e isso a psicologia está muito certa em combater. Um trágico exemplo deste problema são sobreviventes completamente inocentes que se sentem culpados por terem sido salvos enquanto outros não foram.

    De qualquer maneira, a sociedade moderna perdeu qualquer respeito com o sentimento de culpa, como se fosse algo totalmente ilegal e externo a pessoa, sempre imposta por outrem e que deve ser extinguido da pessoa. De fato, o embaixador da moral foi calado; não há quem proteste sobre nossos atos, pecados e traições.

    Ainda na analogia com a fome, observa-se que há doenças que tiram qualquer apetite do doente, um grave problema. O principal sintoma que a doença passou, uma forte fome, se torna uma alegria para quem estava doente. Assim também quem, de repente, nessa época de Rosh Hashana e Iom Kipur, lhe começa pesar a consciência, quem sabe , pode ficar alegre. O coração não está totalmente entupido. Não se perdeu a capacidade de se perguntar. A partir deste enfoque, se entende como em determinados casos a confissão de pecados pode ser um ato alegre.

    É certo que a capacidade de se ter esse sentimento não será suficiente para mudar tudo de uma vez. É quando a voz da teshuvá então deve lhe dizer: é verdade, mas por favor, não precisa acrecentar mais ítens na lista, não precisa se justificar onde não há justificativa, não tente enfeitar o que é sujo, não transforme fraqueza em ideologia. Sofra com a pureza que se perdeu e não anestesie a auto-crítica que talvez lhe restou. Guarde pelo menos uma culpa para que outras não se amontoem – e o faça com alegria por ter esta capacidade.

    Importante saber: esse ambiente não deve ser, necessariamente, uma casa para a coerência pois esta não vai querer aceitar que boas decisões fiquem ao lado dos pecados confissionados, tudo ou nada. Mas justamente esta maleabilidade tão judaica é o segredo de nossa sobrevivência como um povo. Essa falta de coerência permite ações éticas mesmo para quem não liga pra isso, mesmo se admira os livros de Nietzsche. É ela que permite que De’us paire dentro de nossa impureza e, com certeza, junto às nossas contradições. É ela que permite que boas decisões sejam tomadas.

    * Traduzido e adaptado por este blog.
    ** Rozenberg é professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém em Filosofia e pensamento judaico.

     



    Escrito por Iossi Katri às 01h38
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    Ensaio para 9 de Av:

    O sonho acabou?

    As três semanas de luto pela destruição dos templos sagrados de Jerusalém podem ser passadas de algumas maneiras. À se olhar por um prisma tradicional, preservar os costumes que expressam o luto e que tendem a evocar um certo sentimento de tristeza é algo que é válido para todos, em maior ou menor medida.

    Juntamente com isso, e por outro lado, a Chassidut sugere uma segunda perspectiva para esta época de luto para os judeus. Partindo do pressuposto que tudo no mundo e o que nele acontece vem de De’us, é mister considerar que nada do que nos acomete é essencialmente ruim; no máximo, se trata de uma bondade não revelada. Cabe às pessoas desvendar aquilo que oculta a real natureza dos acontecimentos e constatar o ponto positivo, a semente da reviravolta, que está presente na desgraça.

    Jamais confundir, a proposta chassídica para estes dias não quer dizer que tudo está bem. Pelo contrário, sua mensagem é que nem tudo está perdido.

    Diferente de demais celebrações no judaísmo  com um enfoque pessoal e familiar, as três semanas, e o 9 de Av em particular, são um chamado para a introspecção do coletivo.

    Como, por exemplo, prega o profeta Yeshayahu na haftará do shabat que sempre o antecede o Tisha Beav, denunciando a corrupção da sociedade judaica de seu tempo como um todo e seu distanciamento do ideário religioso, ético e moral.

    Enquanto mudanças de comportamente pessoais são relativamente fáceis para diagnosticar, no coletivo, mudanças de grande importância podem se passar sem que ninguém ou poucos percebam.

    Daí a importância do 9 de Av, lembrar épocas onde os judeus tinham independência em Israel, presença divina na forma de dois templos sagrados e o que não, tudo parecendo estar na mais perfeita ordem, mas corrompida por dentro, teve um colapso que mudou para sempre sua história.  

    A destruição dos templos, de certa maneira, foi o fim de um sonho. Sonho de toda nação que é viver prosperamente em sua terra. Desfeito este sonho, começaram se outros, como ilustrado magistralmente pelo Talmud Yerushalmi ao descrever o nascimento de um menino de nome Mashiach no dia da destruição do segundo templo.

    Mas até que chegue o Mashiach, a solução final, ou mesmo para que chegue, todo coletivo tem os seus “sonhos”, os grandes objetivos feitos para uma ou mais gerações. Não sempre e nem todos, conseguem reconhecer a existência desses sonhos. Mesmo se os reconhece, por vezes é ainda mais difícil saber a real situação do andar da carruagem. No entanto, a despeito do que e quem os percebe, os sonhos do coletivo vão sempre se desfazendo ou se consumando.

    Temos um exemplo nada distante para um sonho do coletivo que parecia muito sólido mas que se desfez: o comunismo na URSS. Demorou quase 80 anos, mas sua inviabilidade, não apenas ecnômica, acabou repentinamente com aquele sonho, ou pesadelo, surpreendendo todo o mundo.

    Há também, vezes em que o sonho termina ou fica desnutrido justamente por ser bem suscedido. Este é o caso do sionismo, que passando pelo grande pesadelo do Holocausto também visto por alguns, logrou a Independência do Estado de Israel. Óbvio que o sionismo previa vários ideais para quando o Estado de Israel já estivera estabelecido, mas uma vez estabelecido, é através da política se muda ou se mantém a situação. Muitos perguntam o que aconteceu com o sionismo de outrora, aquele sonho onde tendo Israel tudo seria ou se faria lindo. Acabou. Tendo os judeus conseguido o Esado de Israel, já não se pode mais fantasiar a respeito. Tudo está lá, menos aquele sonho. Há outros, que eventualmente podem ser incluídos no sionismo, como o sonho da paz, por exemplo.  

    Com o dinamismo das circunstâncias, cabe aos sonhos acompanhar as mudanças e se adaptar ao desafio do momento. Mais que isso, depois de ser bem explorado, o sonho sempre requer novidades. Seja apenas um novo fator lateral, como um novo inimigo, seja nas próprias características do sonho.

    Dentro do judaísmo religioso, talvez o último grande sonho foi o chassidismo. Estando o judaísmo, juntamente com as outras religiões, ameaçado pela modernidade iluminista, criou se o ideal de um judeu que mantinha suas tradições não apenas por resistir a mudanças, mas sim por amor. Por amar a De’us, a religião e a seus irmãos judeus.

    Finda a segunda guerra mundial, com as liberdades constituicionais garantidas nos lugares onde a maioria dos judeus se encontravam e com a - inevitável  - decorrente assimilação que tomou proporções jamais vistas anteriormente, começou-se em Nova York um novo sonho no mundo judaico, com alguns componentes de continuação do sonho chassídico. Como outros sonhos do coletivo, nem todos o reconhecem, mas não há quem no mundo judaico não foi influenciado de alguma maneira.

    O Rebe de Lubavitch, o grande visionário deste sonho, não aceitou de nenhuma maneira abrir mão da parte do povo que estava - e ainda os há - se perdendo. Enviou emissários para quase todos os lugares onde haviam judeus afim de aproximá-los ao judaísmo.

    Após o falecimento do Rebe, com o movimento já tendo atingido seu ápice não em quantidade mas em intensidade, perdeu se o vetor de inspiração, aquilo que criava os novos fatores a alimentar e intensificar a vivência daquele sonho por parte dos emissários, simpatizantes e o público alvo.   

    A estrutura que ficou até aumentou de tamanho dado o crescimento natural, biológico e de novos adeptos. As mudanças, os novos fatores, de modo geral, foram pra pior. Com a falta ou apenas a diminuição de inspiração religiosa, o potencial mercadológico do movimento cada vez mais evidenciado se tornou um atrativo suficiente para que se toquem - e se criem novos - boa parte dos projetos. A parte do sonho sem o dito potencial ,não raro, fica à margem da atuação por parte do movimento.

    A causa e o sonho, embora apresente problemas no ideológico como certas contradições, de modo geral, continua viável. O público alvo continua em seu lugar e sem perder a receptividade. Mas existe o problema, que não é simplesmente técnico, o da inspiração.

    Para se pensar em dar uma sobrevida a este sonho, encontrar algo que possa ser a semente da reviravolta, o ponto positivo que a chassidut nos incita a buscar em situações adversas, uma vez que até aqui apenas os seus líderes o faziam, é preciso que o movimento faça algo completamente inédito em sua história: se perguntar.

    Não é fácil, inclusive pelo ineditisimo, e mais ainda pelas respostas que as perguntas podem acarretar se perguntadas honestamente. Mas parece ser necessário.

    Talvez, realmente, é hora de se perguntar se o sonho acabou ou ainda pode ser renovado. Talvez é hora de se perguntar se seus bons quadros são a regra ou a excessão. É hora de perguntar como a juventude enxerga o movimento e como ela se enxerga. É hora da juventude se perguntar. É hora de refletir.



    Escrito por Iossi Katri às 18h02
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    Na porta de restaurante japones kasher

    Já que a imagem é 100% humor, fica a pergunta : Será que em Pessach eles tiram a mezuzá por conter kitniot ?



    Escrito por Eiran Kreimer às 10h23
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    Video do dia - comercial da Cellcom

    Hoje trazemos um comercial da Cellcom de Israel,muito interessante e bonito.

    Ele mostra um casamento de um "baal teshuvá", jovem que retornou as suas raízes religiosas judaicas e seus amigos do "outro lado" que comparecem na cerimonia lotada de religiosos.

    Muito significativo e serve para os 2 lados da moeda,seja para um baal teshuvá ou para um ex-religioso que chutou o balde,assim como o caso de amigos que mudam o comportamento em diferentes fases da vida,existem tambem problemas relacionados com familiares.

     No meio de varios casos e historias que vi e ouvi,por causa da mudança de habitos e comportamentos,teve um em especial que me chamou a atenção : Uma jovem americana de familia secular ficou religiosa e quando foi se casar,os pais se recusaram a ir no casamento da propria filha,ela teve que entrar na chupah acompanhada de uma mulher que dirige um fundo de hachnassat kalá.(auxilio as noivas)

    Particularmente, já aconteceu comigo de recusar ser padrinho de casamento em rito de outra religião,não ir em um casamento que caiu em shabat (sabado) e inumeros convites para almoços e jantares em churrascarias e restaurantes que não são kasher,sendo em todos os casos meus melhores amigos envolvidos.(não são judeus)

     Mas amizades verdadeiras duram pra sempre,mesmo que as circunstancias da vida e muitas vezes a distancia separem,amigos são iguais aos diamantes,eternos.



    Escrito por Eiran Kreimer às 23h10
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    Bibi Netaniahu & Breslov - video do dia



    Escrito por Eiran Kreimer às 13h26
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    Do Rio de Janeiro para Tsfat

    O rabino A.Berkes saiu de Jerusalem onde estava hospedado,com destino a cidade de Tsfat,onde depois de quase 1 ano teve a alegria e emoção de reencontrar sua filha que lá está estudando;o que tornou o evento mais emocionante para a menina foi a surpresa de rever sua mãe,já que ela achava que apenas o pai estava vindo visita-la.

    Depois do rabino visitar a instituição onde a filha estuda e conversar com o diretor,recebe a dica de uma nova pizzaria na cidade e resolve conferir,já que disseram que era "pertinho".

    Acontece que na cidade de Tsfat,com suas subidas e descidas,o "pertinho" leva cerca de 25 minutos e no meio da caminhada pelas ruas semi-desertas um carro passa e de repente estaciona,o motorista  salta e vai na direção do rabino dizendo "ani mekir otchá !!" (eu conheço você !!).

    Vieram 2 pensamentos na cabeça,ou é mais um pedindo tsedaká ou mais um maluco...

    Nem uma coisa e nem outra,o homem vai no carro,pega um envelope e puxa uma foto de dentro e... surpresa ! Na foto está ele,o rabino e seu filho Yossi no dia do bar-mitsvah 8 anos atrás,no 770 em Crown Heights -NY.

    E aqui começa a historia de Eliah Cohen e como ele se tornou um judeu observante de torah & mitsvot.

    Eliah terminou seu serviço militar em Israel e como a grande maioria dos jovens,resolveu rodar o mundo como mochileiro,indo parar no ano de 1996 na cidade do Rio de Janeiro,mais precisamente no bairro do Catete e numa epoca onde a internet ainda engatinhava e não havia tantas facilidades de encontrar certos lugares,acabou indo passar as 2 noites de Pessach na casa do rabino Berkes,não apenas isso,levou amigos e terminou indo fazer todas as refeições de Pessach na casa do rabino,que diga-se de passagem,não se lembrava de nada disso.

    O jovem Eliah ficou tão impressionado durante esses 8 dias de convivio com o rabino e sua familia,a recepção calorosa e o ambiente de yidishkait,que ao retornar para Israel estava tão entusiasmado que começou a frequentar shiurim e estudar torah,pouco a pouco cumprindo mais e mais mitsvot.

    Cerca de 7 anos depois Eliah viaja para NY e resolve visitar o 770,sede do chabad e assim que coloca os pés lá dentro percebe que está tendo um bar mitsvah e quando observa melhor,o garoto que estava fazendo 13 anos era o mesmo que ele conheceu com 5 anos no Rio de Janeiro !! Não pensou 2 vezes e tirou uma foto de recordação com o rabino e seu filho Yossi.

    Se passaram mais alguns anos e Eliah já tinha mudado seu visual de mochileiro para um "look" barba,kipá e tsitsit,2 anos atras se mudou da cidade de Afula e foi morar em Tsfat.

    Um amigo lhe telefona pedindo para ver umas fotos antigas e combinam de se encontrar no dia seguinte;ele pega uma caixa e um envelope cheio de fotos antigas e coloca no carro,no dia seguinte quando está dirigindo por Tsfat,acaba reconhecendo uma pessoa andando na rua...

     Eliah agradeceu ao rabino pelo bem que ele lhe fez,ajudando a lhe iluminar e influenciando positivamente,fazendo com que ele retornasse as suas raízes.

    ****************************************************

     Já está mais do que comprovado,quando estamos longe de casa apreciamos aquilo que não damos o devido valor e se encontra na nossa esquina,ao nosso alcance.

    Já me perguntaram muitas vezes como,por que e aonde comecei a fazer teshuvá,mas é impossivel dar uma unica resposta,já que se divide em varias partes ou degraus na escada,sendo todos importantes.

    Mas sem duvida em 1995 quando morei em Santa Barbara-CA aumentou a identidade judaica adormecida,em 98 voltei a passeio para a mesma cidade e fui shabat no beit chabad local,sendo recebido pelo rabino Yossef Loschak e devido a sua recepção calorosa e apesar de que naquele momento eu era um peixe fora d'agua,estava de volta pra casa,alias,não por acaso a torah é tambem chamada de agua,ideal para um peixe que está fora !!

     Meu apelido lá entre os frequentadores virou "brazil",o rabino me questionou o motivo de eu não ter aparecido por lá em 95 quando morei na cidade,pergunta que não soube responder,talvez porque não era a hora certa,mas não tenho duvida que teria sido bem melhor.

    Outra pergunta do rabino,se eu conhecia os irmãos Nigri de S.Paulo,que tinham passado Pessach com ele,mas fica dificil responder sem saber os primeiros nomes,seria quase igual a perguntar pro rabino se ele conhece os irmãos Silva do Maranhão ou os Goldemberg de Miami.

    Alguns anos depois telefonei para o rabino Loschak,claro que ele não se lembrava de mim,agradeci por ele ter me ajudado no meu caminho de volta e lhe disse "Você tem uma mina de ouro nas suas mãos !"

     " Gold mine ?" - "Yes,gold mine!" - Expliquei que a mina de ouro que me referia eram os cerca de 500 estudantes judeus que sempre estão de passagem,já que se trata de uma cidade universitaria;alguns anos depois seu filho mais velho Mendel abriu um beit chabad no campus da universidade,UCSB.

    Muitas vezes pequenos atos tem grandes significados e podem influenciar vidas inteiras,especialmente quando vem de belos exemplos de mistvot,como é o caso de hachnassat orchim.

    E as historias se repetem.



    Escrito por Eiran Kreimer às 13h16
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    Será que o Facebook é kasher lepessach ?

    fbook



    Escrito por Eiran Kreimer às 23h37
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    Video do dia

    Nosso video do dia mostra a verdadeira alegria da festa de Purim !!

    Em um farbrenguen de Kfar Chabad,tudo pode acontecer !!!



    Escrito por Eiran Kreimer às 15h23
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    Selo UOL

    UOL   Recebemos o selo de "blogs legais" da semana no UOL,agradecemos aos nossos queridos leitores pelo apoio e carinho que sempre demonstram.


    Escrito por Eiran Kreimer às 14h55
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    NYE ZHURITSE - VIDEO DO DIA

    besht

    A imagem acima retrata o nigun "nye zhuritse",cuja letra em russo é uma adaptação de uma musica folclorica popular,sua tradução é mais ou menos o seguinte :

    "Não se preocupem pessoal,o que nós vamos fazer ? Vamos para "Karchunki",lá tem muita vodka para beber"

    "Karchunki" ou "Kamchatka",é uma região bem afastada na Russia e convenhamos,não havia necessidade de viajarem até um local tão distante,já que existe vodka em todas as regiões da Russia(ex-URSS).

    Mas o significado é outro,eles querem dizer "O que vamos fazer ?Vamos viajar até o nosso rebbe(Miteler) e beber direto na fonte(da chassidut)",mostrando assim uma total devoção,já que muita vezes tinham que percorrer longas distancias entre as cidades,debaixo de um frio intenso,sendo assim mais uma razão para a vodka ser citada,já que era uma forma de "esquentar".

    Apesar da imagem ilustrativa ser de um nigun chabad,nosso video de hoje traz Satmer chassidim,direto de Monroe e não sabemos se eles estavam indo para uma região distante na Russia ou beber vodka,mas vale o registro.



    Escrito por Eiran Kreimer às 00h25
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    SATÃ EM GORAI - CRÍTICA

    SATÃ EM GORAI - O primeiro livro publicado por Isaac Bashevis Singer ainda na Polônia em 1933 já contém muitos dos componentes que permearam suas dezenas de obras ao longo de sua vida: a vida dos judeus na Europa oriental, inúmeras frases citadas dos livros clássicos do judaísmo, aparições de anjos e fantasmas, vegetarianismo e mais.

    Originalmente, o livro foi publicado em capítulos num jornal judaico de Varsóvia, característica facilmente perceptível uma vez que os capítulos parecem ter vida própria, o que compromete um pouco o desenvolvimento da narrativa como um todo. Nas obras mais avançadas de Bashevis Singer, com o amadurecimento de seu estilo, é natural, a narração e os personagens ganham em densidade e aprofundamento.

    Portanto, se 'Satã em Gorai' sai perdendo se comparada com outras obras do próprio autor e quanto mais com de outros, é melhor tratar do livro por aquilo que tem do que pelo que deixa de ter.

    A história da cidade de Gorai contada no livro - uma sucessão de desgraças - começando com o verdadeiro massacre dos cossacos liderados por Bogdan Chmelnicki que assolou os judeus da Polônia em 1648, a lenta reconstrução e o repovoamento em meio a uma tenebrosa pobreza e, finalmente, a difundida crença no falso Mashiach Shabtai Tsvi provocada por toda espécie de emissários e a consequente insanidade que se acometeu em Gorai – além de convidar o leitor à refletir sobre um importante e triste capítulo de nossa história, trabalha sobre o senso religioso e humano de forma geral.

    Historicamente falando, pode-se perceber que a ordem dos acontecimentos apresentados no livro não é apenas cronológica. É de causa e consequência. Apesar de todo o misticismo exarcebado que estava em voga naquela época e a consequente crença desmedida em acontecimentos sobrenaturais, justamente num tempo tão complicado socialmente para os judeus, sozinhos, jamais fariam com que a maioria dos judeus acreditasse em um falso Mashiach como Shabtai Tsvi. Antes, o que preparou o terreno e o que causou esse fenômeno foi o massacre de Chmelnicki. Foi quando o Satã veio e fincou raízes na cidade de Gorai - e em muitas outras - que nunca mais foi a mesma.

    Findo o massacre, muitos dos judeus mostraram reação ao acreditar em Shabtai Tsvi, encontrando um alento em meio à tanta desgraça. No entanto, à luz dos personagens de Bashevis Singer, cabe distinguir e classificar a espécie dos sentimentos expressos nesta reação. Pois enquanto alguns dos judeus se tornaram irascíveis como o sempre radical Mordechai Yossef que viu no prenúncio da redenção uma oportunidade para saciar sua sede de vingança contra os outros povos (além de uma quebra de hierarquia e também vingança na própria sociedade judaica), outros como Godel Hassid, acreditaram em Shabtai Tsvi alimentados pelo sentimento de devoção a De'us que não lhes ficaria devedor depois de tantos sofrimentos e desgraça.

    Havia um outro fator que ajudou a disseminação na crença em Shabtai Tsvi. De modo característico Bashevis Singer o ilustra da seguinte maneira: por muitos anos não havia um Shoichet (abatedor de animais) em Gorai até que R. Guedalia, um emissário da crença de Shabtai Tsvi chegou à cidade. Além de abater os animais, R. Guedalia tomou o controle da comunidade de Gorai em outros ramos implantando estranhas mudanças, algumas delas explicitamente contra as leis da Torah. Os velhos que jamais acreditaram em Shabtai Tsvi não aproveitaram os sinais de corrupção de R. Guedália para protestar e alertar o povo contra a nova seita pois estavam satisfeitos de ter carne na cidade, algo que não havia até esse tal de Guedália chegar.

    É claro que se trata de uma típica estocada irônica de Basevis Singer (estes velhos se mostram muito cuidadosos quanto as leis de kashrut do abate dos animais enquanto fecham os olhos para leis capitais no judaísmo como idolatria e libertinagem) que não perde a chance de promover o vegetarianismo. De qualquer maneira, o Shabtaismo seduziu e subornou o bom senso de muita gente através de seu permissivismo.

    No entanto, fosse apenas uma leniência aqui e outra ali, pode se entender. O que causa espanto é o fato de que os pecados não apenas foram permitidos ou abolidos, eles foram estimulados.

    A base teórica do estímulo aos pecados, é citada no livro, se baseava na premissa de que é preciso descer até o último degrau para então elevá-lo. Daí, eles explicavam, o ditado do Talmud que o Mashiach chegará em uma geração toda meritória ou de uma geração toda pecaminosa. Sem conseguir chegar à isso por méritos, eles queriam evocar a vinda do Mashiach através do pecado.

    Qualquer um pode imaginar que esse tipo de crença se auto destrói uma vez que um dos últimos degraus a se alcançar para então “elevar” é simplesmente terminar com a própria religião se convertendo a outra e jamais ter a possibilidade de se lembrar da tarefa da elevação, como de fato aconteceu com Shabtai Tsvi que se converteu ao Islamismo e nunca mais voltou. Apesar de sua conversão, a maioria entre seus seguidores continuaram acreditando na seita dentro da esfera judaica. Outros, como Guedália seguiram o passo de seu mestre e também se converteram.

    Basevis Singer faz acreditar que aqueles que embarcaram na seita munidos de uma boa ingênua fé, a grande maioria, saíram do movimento ainda enquanto era tempo. Historiadores no entanto, enxergam que a maior profundidade religiosa e mesmo a disseminação do movimento já aconteceu após sua conversão ao islamismo.

    Uma pergunta que paira sobre o texto de Bashevis Singer é quanto à sinceridade da crença em Shabtai Tsvi por parte dos líderes do movimento. Ao que parece, não eram meros charlatões, eles deveras acreditavam em Shabtai Tsvi e, creio, o próprio Shabtai Tsvi, especialmente louco, também acreditava em si.

    Não propriamente baseado nas fontes do judaísmo que eles trataram de distorcer como a teoria do pecado em nome de De'us e demais cascatas, antes, eles acreditavam mesmo é no próprio desvio, no pecado. Desvios estes que eles conheciam de perto, lhes era próprio, seja porque já tinham alguma predisposição imoral ou mesmo porque foram apresentados pela e durante a vida. À dizer, estando a vida e o mundo totalmente desordenados, eles também aderiram à desordem não apenas por conforto, mas principalmente por fé que é assim que o mundo é regido. Não apenas dançaram de acordo com uma música sem nenhum ritmo aparente, eles acreditavam na falta de ritmo da música.

    Concluí-se, a crença messiânica em Shabtai Tsvi não era algo próprio de um povo saudável e bravo mas sim era fruto de traumas de um povo sofrido. Bashevis Singer ilustra o fato magistralmente através da personagem Rochale e de seu primeiro marido Itche Mates.

    Bonita e inteligente, Rochale, filha na família mais rica de Gorai perdeu tudo e todos, menos o seu pai, no massache de Chmelnicki. Tendo se tornada manca e sem nenhuma posse, se alijou do contato com a sociedade quando, em circunstâncias estranhas, também perdeu seu pai. Após ser torturada por sua avó, acabou sendo encaminhada à um casamento contra sua vontade com Itsche Mates, forasteiro devoto em excesso e seguidor ferrenho de Shabtai Tsvi, trinta anos mais velho, que assim que chegou em Gorai tratou de se colocar na vida de Rochale.

    Ao se casar, ela descobre nele um sério problema que impossibilita sua vida plena como esposa, o que lhe acrescenta amargura sobre todas as amarguras que já teve na vida. Nessa altura,o leitor entende porque o velho rabino de Gorai opositor a seita de Shabtai Tsvi recebeu uma carta o alertando ao fato de que Mates desposou e abandonou quatro mulheres.

    Rochale que sempre foi muito sensível à aparições de outras existências, quando ainda casada com Mates e em contato com as pessoas da seita, tem uma aparição noturna onde é avisada que Shabtai Tsvi é o Mashiach de De'us e que Guedália é um santo varão. A profecia de Rochale foi recebida pelos habitantes de Gorai como a prova cabal acerca da santidade de Shabtai Tsvi até então baseadas em testemunhos vindos do outras cidades e, então, as últimas desconfianças sobre Guedália foram superadas.

    Nada impediu que o povo de Gorai escutasse e acreditasse nas profecias de Rochale, nem mesmo depois que a profetiza, por uma manobra de Guedália que mandou o impotente Itche Mates circular por toda a Polônia para contar a profecia de sua esposa, ter ido morar justamente na casa de Guedália.

    Toda essa extensão vem dizer que não por acaso a profetiza de Shabtai Tsvi é Rochale. Quem como ela conhece a realidade do desvio da ordem natural. Sua existência é em si é o desvio do desvio, milagrosamente sobrevivente do massacre e de outras torturas que ela é. Itsche Mates, íntimo do sagrado e impossibilitado no profano, também tenta resolver seu problema na seita de Shabtai Tsvi. Não chega ao cúmulo de se converter ao islamismo e ao perceber que o shabtaísmo não resolveu o seu problema retorna ao judaísmo. Rochale também deixou de acreditar em Shabtai Tsvi no final, sua profecias cessaram e ainda viu um dibuk entrar e sair de seu corpo.

    Mas, moral da história, Rochale, a filha do desvio, antes sobrevivente de todos os problemas e crises que a formaram, só foi vencida pelo Satã de Gorai quando tentou se alinhar com o mesmo. 



    Escrito por Iossi Katri às 01h46
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    Haifa,fogo e o Midrash

    Como sempre em tudo que ocorre em Israel,seja algo bom ou ruim,acaba gerando muita polemica,como foi possivel constatar no incendio ocorrido semana passada no Carmel e arredores de Haifa.

    Desde rabinos dizendo que a culpa era daqueles que não cumpriam mistvot ou que as 42 pessoas falecidas correspondiam a um nome divino de 42 letras,passando por politicos e imprensa criticando os bombeiros,governo e a capacidade de lidar com incendios e outros tipos de catastrofes.

    Até aí,nenhuma novidade,muitos caciques para poucos indios e até uma certa semelhança com um país verde e amarelo.(azul e branco)

    Foi quando me deparei com um texto do rabino Lazer Brody,um chassid de Breslov,que traz um trecho muito interessante do Midrash Raba,em Shir Hashirim 2:5,que fala sobre "k'shoshana bane hachuchim".

    Basicamente diz o seguinte : " Logo antes de Mashiach vir,D"us vai queimar os arredores de Haifa"

    Vejam no detalhe abaixo :

    Nota do Blog do Iossi : Recomendamos aos interessados no assunto tambem dar uma olhada em sefer melachim(reis),capitulo 18,versiculo 21 até o 46,onde podemos ver que "devido a abundancia em idolatria,D"us manda fogo do céu para a terra no Carmel e por causa do fogo todo a nação vai se reunir".



    Escrito por Eiran Kreimer às 11h45
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